Amor?
Você é mais da razão ou da paixão?

M. estava saindo às pressas do supermercado, meio esbaforida e suando por conta do ar-condicionado quebrado, quando encontrou A. a caminho do estacionamento. Quanto tempo, como vai, bem, e você, eu também.
– Você parece mesmo bem – M. acabou comentando, meio vacilante. – Quer dizer, da última vez que nos vimos…
– Sim, sim, da última vez que nos vimos, eu estava meio mal por causa do B.
M. sorriu. Aparentemente, perder cinco quilos em duas semanas, ser demitida por falta e tomar dois ansiolíticos, um de manhã e outro à tarde, era estar apenas meio mal para os padrões de A. Na época, M. se indignou tanto com a reação da amiga próxima que foram se distanciando a ponto de não serem mais amigas, quanto mais próximas.
A conversa seguiu com A. dizendo:
– Sabe, levei quatro anos para esquecê-lo.
– Quatro? Anos?
– Quatro anos.
– Meu Deus, que loucura!
– Loucura, nada! Paixão.
– Mas paixão dura no máximo dois anos, está provado!
– Então amor, ora! Provas ou palavras não importam, só importa o que eu sentia.
E então M. subitamente se irritou, sem saber bem o porquê. Talvez por sentir de volta toda a sua indignação (“Quanto drama por um namoro que não tem nem seis meses!”, tinha dito na época, “Como você pode chamar de drama o que eu sinto?”, A. protestou, “Drama, sim! Acabou, acabou, reaja!”, “Você sempre simplificando as coisas!”). Ou talvez fosse apenas o ar-condicionado quebrado. O que aconteceu foi que M. acabou dizendo:
– Isso não é amor, A. Deixa eu esclarecer: isso é transtorno psicótico-depressivo.
– Ué, desde quando você é psiquiatra?
– Não precisa ser psiquiatra para ver que você precisa se tratar…
– Me tratar! Por ter me apaixonado!
– Não. Por usar a palavra “paixão” para suprir a carência que você sabe que teve na infância. Vamos lá, A., é hora de admitir! Você passou a vida tentando tapar o buraco que seus pais deixaram dentro de você.
– Mas quem é você para… Veja, é verdade, eu sempre fui carente. Mas isso não significa…
– Você é carente e quer saber: você nunca. Amou. Esse B.
– O quê?!
– A sua carência acabou fazendo com que você idealizasse o B. e se apaixonasse por uma ficção, um constructo, da mesma forma que tinha feito com o J…
– Não ouse falar do J., o amor da minha vida, que demorei não quatro, mas SEIS anos para esquecer!
– Amor da sua vida, A.? Sério, mesmo? Ou só mais uma fantasia que você inventou para acobertar suas reais necessidades? Você usa a palavra amor, mas acho que é falta de vocabulário, porque eu vou te falar agora, quer saber, vou falar: nunca existiu B. nem J, existiram apenas idealizações!
A. suspirou. M. suspirou. A. disse:
– Tenho pena de você, M. Você é tão racional que não entende o que é um coração partido.
– E você precisa dar um Google para descobrir o que você tem: baixa autoestima e necessidade de autoafirmação a partir do outro.
Não se despediram. A. foi fazer suas compras, M. foi para o estacionamento e nunca mais se viram.
Naquele dia, guardando as compras no armário da cozinha, A. pensou em Romeu e Julieta. Será que teriam se apaixonado se Romeu não fosse um Montéquio?
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